MEGA EVOLUÇÕES

A Mega Evolução é uma transformação introduzida na geração VI na qual há uma mudança temporária na forma do Pokémon. Basicamente envolve modificações físicas, temporárias dentro da batalha, podendo aumentar potencialmente todos os status ( Atk,Def,SpAtk, SpDef, Speed ) dependendo do  Pokémon que será Mega Evoluído, sendo que são mais vistosas no exterior do Pokémon.

O Professor Sycamore, assim como o professor Carvalho, mas de outra região (Kalos) é um dos especialistas no assunto e é responsável por estudar as evoluções e seus padrões de mudança. Ele teoriza que a Mega Evolução só pode ser alcançada quando há uma ligação muito grande entre o treinador e o seu Pokémon. Bem, a evolução se considera uma artista, mas assim como todos os artistas ela não consegue se expressar, e ela faz isso através dos genes. Do ponto de vista da evolução ser esquisito é a coisa certa, seja especialista em apenas um tipo de alimento que ninguém mais come ( Olá besouros-rola-bosta) e pronto, talvez você não seja extinto agora.

No mundo real o mais perto que se pode chegar em uma mudança tão drástica e temporária seriam durante os períodos reprodutivos, que é a fase em que alguns animais mudam suas aparências para impressionar seus parceiros sexuais. Um bom exemplo seriam algumas aves que costumam mudar a pigmentação de suas plumagens durante a época reprodutiva para atrair as fêmeas, fazendo com que fiquem mais vistosos com cores mais vívidas, aumentando o dimorfismo sexual em relação aos seus parceiros. Durante esta época alguns machos se tornam extremamente territoriais, o que fortifica o aumento no status como o Ataque.

O dimorfismo sexual pode acarretar em vários riscos ao macho por se apresentar muito chamativo, já que como o pavão muitas outras aves podem acabar exagerando na ornamentação e ficando vulneráveis a predadores. Este tipo de modificação é devido a alta seletividade das fêmeas em relação aos machos adornados, já que preferência delas é um forte indicador de que eles possuem bons genes para a geração futura, já que este exploraram todos os níveis dos seus nichos ecológicos como capacidade de sobreviver, crescer e finalmente entrar em sua época reprodutiva. Bem, parece que por enquanto está valendo a pena para os pavões, afinal, quem precisa voar se todas as garotas querem você?

Hey, sexy lady...
Hey, sexy lady…

Para outros status como Speed, poderíamos imaginar que insetos da ordem Odonata ( libélulas ) passam por uma grande metamorfose durante seu ciclo de vida para que possam explorar outros tipos de ambientes. Em seu estágio máximo de maturação, alteram sua coloração para se distinguir dos outros machos e desenvolvem asas os tornando um dos insetos mais rápidos quando em voo. Alguns outros Pokémon como o Mega Slowpoke passam a viver dentro de conchas, o que aumenta sua defesa. Para um Super Ataque eu poderia dizer que o Mega Pidgeot poderia entrar nessa, mas não vejo aves soltando tornados e nem coisas do tipo, melhor deixar eles com seus golpes de passarinho mesmo.

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Colorido, moderno e com certeza chamativo 😀

Talvez em situações naturais uma mega evolução seja o que poderíamos chamar de  Macho ou Fêmea alfa, pois em em algumas espécies macacos, machos ou fêmeas dominantes adquirem cores mais chamativas indicando que entraram em época reprodutiva.

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Mega Geophagus? Outro exemplo de dimorfismo sexual ocorre em ciclídios do gênero Geophagus em que os machos, durante a época de acasalamento gera uma protuberância na região da cabeça, se tornando bastante agressivo durante a corte e seu território (+Atk).

Mas, se você não possui genes de inteligência, para dança ou ainda para uma plumagem mais brilhante, que tal inflar seu próprio corpo e usar isso como instrumento? ”Life Finds a Way” 😀

#618 STUNFISK

Este Pokémon se esconde na lama ou areia do fundo do mar., onde fica à espera até que alguma presa o toque,  para então liberar uma carga elétrica. – Pokémon X

Este Pokémon é a prova de que  adaptações tem um poder imenso para alterar o design anatômico dos organismos. Neste caso, o Stunfisk nos lembra uma ordem dentro da classe Actinopterygii, chamada de Pleuronectiforme, mais especificamente um linguado. O que mais chama atenção neste peixe é que ele não apresenta simetria bilateral em sua fase adulta, sendo que este apresenta um achatamento do corpo bem evidente, refletindo em seu hábito de vida bentônico (no solo marinho). Acontece que  Stunfisks – *caham* – linguados iniciam suas vidas de um modo totalmente normal, com um corpo simétrico em sua fase juvenil, mas a medida em que estes crescem, seus corpos sofrem uma grande alteração. Durante seu desenvolvimento, seus olhos migram para a parte de ‘cima’ de sua cabeça, sendo que normalmente outros peixes tem olhos de lados opostos da cabeça, o que resulta são dois olhos do mesmo lado sobre um corpo achatado. Como se a puberdade já não fosse difícil o suficiente.

Uma adaptação tão fantástica não poderia sair sem ser falada por aí. Darwin havia sugerido que ”…os ambientes não impõem seus requerimentos adaptativos diretamente. É preferível que os organismos variem em direções em que melhor os beneficiem e que melhor seja possível sobreviver de deixar suas crias…”, por um processo chamado de Seleção Natural. Na 6th Edição de seu livro On The Origin of The Species, Darwin incluiu um capítulo extra para responder aos críticos da época. Um dos que mais se destacaram no assunto dos linguados foi o Biólogo Jackson Mivart, que escreveu: ”.. que a seleção natural é incompetente quando se fala em estágios de estruturas úteis posteriormente”. Nesta  mesma edição Darwin o responde: ”Um orgão em desenvolvimento pode exercer uma função diferente daquela assegurada pelo órgão completo.” e ainda : ” o órgão em questão pode estar ligado a outra característica cujo surgimento conferiu uma vantagem seletiva imediata.” Com bexigas natatórias e nadadeiras reduzidas, estes peixes se encontram no solo marinho, sendo que este se cansaria para continuar a flutuar o tempo todo, então é preferível que este tenha seu habitat no solo, sendo assim, nesta posição, com o sugeriu Johann H. F Aunterieth, um dos que notaram que seu sucesso evolutivo tinha sido devido a tal modificação.

Não se enganem, pode parecer que ele é do tipo Água, porém nosso Pokémon possui dois tipos : Terra e Elétrico. O seu tipo terra, como já dito, remete ao seu hábito de vida no solo, de acordo com sua Pokédex, se esconde e espera para capturar suas presas. O seu lado elétrico (sem piadinhas) talvez seja uma característica comum em grupos de peixes mais antigos, na qual usavam a  eletricidade para atordoar a presa, ou ainda para percepção do animal no ambiente em que vive.

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Espelho espelho meu….

Concluindo, pressões seletivas diferentes nos levam a respostas diferentes das estruturas internas e externas dos organismos. Uma pena que Lamarck tinha a resposta certa, mas usou mecanismos e organismos errados de como se ” responde” ao ambiente. Esta será sempre uma disputa eterna entre forma e função, mas este assunto fica para outro dia.

 

 

 

#258 MUDKIP

Na água, Mudkip respira usando as brânquias de suas bochechas. Quando se encontram em uma situação muito intensa em uma batalha, este Pokémon irá liberar um imenso poder que pode esmagar pedras até maior que ele mesmo – Pokémon Sapphire

Hoje eu trouxe mais um inicial, desta vez um da região de Hoenn, que é muitas vezes confundido com um peixe de nome análogo (mudskipper), porém, este pokémon está mais para anfíbio de acordo com a sua descrição na Pokédex. Pelo que sabemos que os anfíbios pertencem a uma grupo monofilético, pois estes apresentam características tão diversas que são compartilhadas entre as três linhagens (Anura, Gymnophiona e Urodela). Todos estes possuem várias características em comum, sendo a mais aparente o tegumento úmido.  Mas o que mais chama atenção é a capacidade de sofrerem uma grande metamorfose em suas vidas até chegarem no estágio adulto. Isto acontece por que é importante que os estes indivíduos explorem diversos recursos e ambientes diferentes durante sua vida, evitando muita competição entre eles mesmos, ou até outros animais.

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Eu vejo uma box cheia de Mudikps, e vocês? hehehe

Nosso Pokémon de hoje pertence a linhagem dos Urodela (ver também), na qual na maioria possuem cauda em seu estágio adulto ( ao contrário dos Anura). Este animal possui patas dianteiras e traseiras de tamanhos iguais e se locomovem de uma forma bem característica, se assemelhando com muito com o o caminhar dos primeiros tetrapodes. Mas você já ouviram um pouco dessa história no post do Bulbasaur.

O animal em que nosso Mudkip é baseado é um Ambystoma sp, mais especificamente os membros da família Ambystomatidae. Apesar de que do sério risco de extinção, muitos pesquisadores estudam a  incrível habilidade deles de regenerarem membros como cauda e outros membros por completo. Em vários estudos os membros destes animais foram amputados ( pode soar um pouco macabro, mas é pela ciência! hehe) e estes se regeneraram formando novos membros totalmente funcionais.   Mas, está não é a característica mais legal, acreditem!

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– Esta manhã comi meus irmãos de café da manhã (sim, algumas salamandras fazem isto).

O axolote, assim como outros anfíbios, se mantêm em seu estado juvenil (sem passar pela metamorfose), durante toda a sua vida, ou seja, ele eclode do ovo e permanece com as características de sua fase larval durante toda a sua vida, sendo assim, suas brânquias não são retraídas e nem os bulbos oculares são protuberantes, assim como nas fases adultas. Estes podem ainda se reproduzirem durante esta fase denominada de neotenia (que é esse fenômeno de juvenilização progressiva).

A neotenia é uma característica comprovada pela genética. primeiramente estabelecida pelo famoso Julian S. Huxley, no ano de 1920. Em seu experimento se aplicava doses hormonais para se provar que o que controlava o desenvolvimento destes animais era a glândula tireóide, também responsável por uma dúzia de mudanças em mamíferos.  Com isso se comprovou que a pedomorfose (outro nome que se dá a neotenia) é na verdade um passo para trás na evolução, uma vez que as espécies que conseguem se reter em suas formas juvenis descendem de outras que não são capazes de realizar o processo. Ainda não está satisfeito com o qual incríveis são as salamandras? Lembre-se que eu disse que haveria um post sobre um vertebrado que consegue fazer fotossíntese. Quem será esse Pokémon?

Até a próxima (:

#369 RELICANTH

”-Um Pokémon que antes acreditava-se estar extinto. A espécie mantem sua mesma forma desde a 100 milhões de anos. Eles conseguem andar no solo marinho usando suas nadadeiras peitorais.” – Pokémon Emerald

Ainda me lembro do Professor Oak no PokéGear me dizendo que havia uma horda desse peixão na Rota 12 no jogo. Até então nunca o tinha visto, fui e o capturei. Logo que o pesquei, ele me lembrou um fóssil, ou alguma coisa muito antiga que ainda vivia nos mares profundos. A a sua descrição na Pokédex fazia jus ao que eu tinha pensado. Achei até que deveria ir ‘ressuscitar’ algum fragmento para ter ele no jogo na cidade de Pewter, mas não foi o caso. Pois bem. Vou explicar o que aconteceu para que eu descobrisse porque ele foi simplesmente pescado no jogo. Mas antes de começar, o que você sabe sobre peixes? Você sabia que eles não existem ? Vou contar uma estória que ouvi numa aula logo que iniciei o ensino superior.

No cladograma dos vertebrados, o táxon ‘Pisces’ não é formado por descendentes de um mesmo ancestral comum. O que eu quero dizer é que o ancestral de alguns lagartos é o mesmo da sardinha e portanto não é considerado um grupo monofilético (agrupamento que inclui uma espécie ancestral e todas as suas espécies descendentes). Tudo isso porque o táxon foi criado com base na semelhança entre vertebrados aquáticos, pois os peixes possuem mais parentesco com o grupo dos Tetrápoda. Da proxima vez que não se sentir cheio depois de comer peixe, não se preocupe, não é culpa sua.

O Relicanth é baseado em um peixe de escamas grossas chamadas de escamas cosmóides encontradas apenas em peixes antigos. Chamado de Coelacanth (Latimeria menadoensis ou L. chamlunae)  este foi redescoberto em 1938 na costa da Africa do Sul e Índia. Por eles viverem em lugares profundos, desenvolveram uma adaptação especial conhecida como Tapetum, presente em gatos, cachorros e polvos vampiros, bem característica por aquele brilho refletido do olho quando expostos a luz. Isso ajuda a captar luz mesmo em ambientes  quase sem nenhuma luminosidade.

Celacantos (como se fala por aqui) pertence a um clado de peixes predadores chamados de Sarcopterygii conhecidos através de registros fósseis da época do Devoniano (400 a 360 milhões de anos atrás). São considerados os representantes dos anfíbios e todos os tetrápodes. E aí é que está.

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Muitas vezes esse animal é mencionado como um ”fóssil vivo” por ter vivido em regiões isoladas, e devido a esse isolamento quase não se modificaram em sua morfologia, pois não houve ‘necessidade’ de mudanças (causadas por pressões seletivas) para que suas estruturas se modificassem, de forma que os diferenciasse minimamente e serem considerados de outra espécie ou grupo. A expressão em que se diz que o indivíduo quase não se alterou morfologicamente soa errôneo e não é muito correto de se dizer, pois nesse caso muitas lacunas temporais entre os Coelacanth atuais e do fóssil mais antigo de que se tem notícia, o Megalocoelacanthus dobei,  que viveu entre 145,5 milhões de anos atrás, ainda não foram preenchidas.

Mas o que tem de tão importante nisso?

Essas criaturas são muito importantes porque com eles  se consegue relacionar os peixes pulmonados e os tetrápodes. Vestígios de uma estrutura óssea em seu abdôme vem sido discutida desde o  século 19, apenas recentemente essa estrutura foi descrita como um pulmão vestigial em Celacantos do Paleozóico e Mesozóico. Pouco se sabia dos contemporâneos e apenas agora se comprovou que essa estrutura é uma adaptação a profundidade em que vive. Talvez isto explique como sobreviveram durante tantas eras. Esse órgão vestigial está relacionado como uma reserva oxigênio, pois a região abaixo dessa estrutura está fortemente coberta por escamas mais duras e muito próximas as brânquias. E mais, esses animais possuem pares de nadadeiras divididas em três lóbulos e muitas vezes as usam para ‘andar’ no solo marinho. Algumas dessas características  acabam formando uma ponte evolucionária entre os animais marinhos e os terrestres, muitas vezes chamados de ”Elo Perdido”.

Assim como no jogo, como o Coelacanth, o Relicanth é raro de se achar. Hoje acredita-se que existam pouco menos de 500 indivíduos nas regiões em que foi achado. Sem a conservação talvez percamos essa relíquia histórica. E coloca história nisso.

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5 Francos do país de Comoros.

#219 MAGCARGO

”Sua casca frágil ocasionalmente expele chamas intensas que circundam todo o seu corpo.” – Pokémon Fire Red

Dando continuação aos posts, resolvi colocar esse simpático Pokémon que é bem interessante e faz parte de um Filo bastante intrigante. Estes vivem e passam por nós quase que despercebidamente. Esses gastropodes são extremamente importantes para o ecossistema de modo geral, mas chamo atenção para a sua história evolutiva que é muito complexa.

Analisando sua biologia,  suas características refletem muito aos caracóis existente no mundo real. Obviamente, nosso Pokémon é baseado em um caracol pertencente ao filo Mollusca. Seu corpo é coberto por um manto de magma, que é um órgão que forma a parede dorsal, que na maioria dos moluscos reais cresce durante o desenvolvimento e contem canais musculares, canais hemocélicos, etc.  Em sua descrição na Pokédex, se diz que o corpo do Magcargo pode chegar a 18,000 Fahrenheit ( 9982ºC), o que é mais que o bastante para causar a evaporação da água quando este entra em contato, principalmente em dias chuvosos em que os pingos se tornam vapor instantaneamente quando atingem seu corpo,  como dito em sua Pokédex.

Victaphanta atramentaria é um dos possíveis animais em que se basearam este pokémon.
A Victaphanta atramentaria é um dos possíveis gastrópodes da família Rhytindidae em que se basearam este Pokémon.

A concha do Magcargo se forma da mesma forma em que as rochas são formadas, atravéz do resfriamento continuo em contato com o ar, sendo assim, se forma uma camada bem fina que pode se desfazer com qualquer contato que não seja delicado o suficiente. Daí a sua Hidden Ability de Weak Armor no jogo, que não vou entrar em detalhes. Cheguei aonde queria. A concha.

No mundo real, as conchas modernas são enroladas assimetricamente, e estas tiveram uma, talvez terrível, consequência (quem disse que evolução era só para o bem?) e mesmo assim, esse grupo conseguiu sobreviver ao longos das eras, sendo que, dentre outras coisas, é claro, sua concha, juntamente com outros fatores,  conferiram o sucesso adaptativo até os dias de hoje.

Um dos fenômenos mais extraordinários na história evolutiva dos Mollusca é um fenômeno conhecido como torção, que acontece em sua concha. Esta torção resultou à restrição do espaço do lado direito da cavidade do manto do animal, ou seja, para que se tenha uma concha diversas modificações na sua anatomia interna levaram a uma grande mudança do lado de fora de seu corpo,  fazendo com que tenha tido perdas ou mudanças no posicionamento de estruturas vitais, como por exemplo os átrios, que são lacunas por onde seu sangue circula e também o osfradidio, orgão químioreceptor usado geralmente na procura por parceiros sexuais e alimentos, que eram originalmente do lado esquerdo, ao longo do crescimento do animal, sendo a parte mais evidente desta modificação só é expressa em sua fase adulta.

Nos gastrópodes modernos, o fluxo de líquidos passam primeiramente pelos ctenídios (órgão branquial primitivo) em seguida ânus e nefridioporos e só depois pelos póros excretores da sua concha. Sua concha se desenvolve durante a sua fase larval chamada de fase véliger, que ao longo de seu desenvolvimento sofre uma espécie de torção da massa visceral, deslocando seu manto para frente, sob sua cabeça. Digamos que eles ”sofrem” um pouco, mas nem percebem.

Várias hipóteses foram levantadas para se saber o por quê desta torção, uma delas foi a de que a cabeça precisava de mais espaço na concha para se protegeram de predadores, devido ao grande espaço que esta requeria. Outra foi de que o animal tentou equilibrar seus órgãos internos para que houvesse um equilíbrio e a concha não tombasse para os lados. Talvez isto poderia ter causado a grande mudança no arranjo interno de suas estruturas vitais.

Como na natureza nada é perfeito, antigamente acreditava-se que essa adaptação foi uma resposta para evitar a auto poluição, por que sem a mudança no fluxo original da água através da cavidade do manto, dejetos, muitas vezes fecais, poderiam ser expulsas sob a cabeça e poluir sua própria boca e as regiões sensitivas (ctenídios, por exemplo), e por isso desenvolveram poros nas conchas alterando os fluxos de líquidos de forma unilateral, seguindo o curso mais eficiente para que isso ocorra.

Desenhos esquemático representando as mudanças nos padrões internos ao longo da história dos Mollusca.
Desenhos esquemáticos representando as mudanças nos padrões internos ao longo da história dos Mollusca.

 Agora talvez se pergunte: Mas e as lesmas sem conchas? Bom, isso também fica para outro post.

#007 SQUIRTLE

O casco do Squirtle não é meramente usado para proteção. O formato arredondado de seu casco e as ranhuras em sua superfície ajudam a minimizar a resistência na água, fazendo com que este Pokémon nade em altas velocidades. – Pokémon Ruby/Sapphire

Para completar o trio de iniciais de Kanto, hoje eu trouxe o Squirtle. Automaticamente, ao ver sua aparência, nos lembramos das tartarugas. Um dos grandes assuntos tem sido sobre evolução desses répteis, porém, há poucos registros fósseis descobertos que nos mostram transições deste grupo ao longo do tempo. Os primeiros relatos sobre os ancestrais das tartarugas datam do período Triássico e pouco se sabe sobre suas modificações durante as eras.

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Atualmente, se aceita que tartarugas são Anapsidas e não possuem aberturas no crânio além das oculares. Ao contrário disso, os Diapsidas, que se referem aos répteis, assim como os lagartos crocodilos e aves, pois estes possuem mais de uma abertura na região temporal de seus crânios. (¹)

Voltando à Pokédex, ela tem tudo para nos dizer sobre o que mais chama atenção nesses Pokémon: seu casco. Como esperado, este é chave para o sucesso evolutivo desta ordem. No mundo real, essas criaturas estão agrupadas em uma ordem chamada de Testudina, ou seja, as tartarugas, como dito anteriormente. Para muitos, o Squirtle é o mais simpático e preferido na hora de escolher como inicial; mas não se enganem, as tartarugas são de longe um dos grupos de vertebrados mais estranhos. Imagine passar a sua vida inteira dentro de uma estrutura recoberta pelos seus próprios ossos (casco), formada pela fusão de sua coluna vertebral e costelas achatadas e ainda com suas patas dentro das costelas.

 

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Mas, como as tartarugas conseguiram seus cascos?

Você deve estar pensando na variedade de carapaças que as espécies de quelônios podem ter. A forma de seus cascos acaba refletindo em seus hábitos de vida como resposta de suas várias pressões seletivas impostas pelos ambientes em que vivem. Cágados, por exemplo, possuem cascos achatados com ossificações reduzidas para que não pesem tanto dentro da água, junto de patas especiais com membrana interdigital para auxiliar na natação. Já os jabutis possuem adaptações para viverem no meio terrestre com patas apropriadas para escavação e casco mais convexo. Alguns podem até trocar partes de pouco em pouco, acompanhando o crescimento do animal. Pode parecer uma tarefa difícil carregar sua ”casa” por aí, mas acontece que o material de que seus ossos são feitos é bem leve, o que ajuda na dinâmica dentro da água. O mais interessante sobre o casco é que, na verdade, se tratam de costelas achatadas revertidas por queratina. (!)

Pouco se sabe sobre a evolução de seu casco ao longo das eras. Ao que parece, eles tiveram uma origem a partir de um lagarto Diapsida, descoberto no ano passado (2015). Existe apenas um gênero, esse denominado Pappochelys rosinae, que morfologicamente fica intermediário com espécies encontradas desde o final do Triássico como o Odontochelys e Eunotosaurus do período Permiano. (¹)

Comparação de uma Tartaruga moderna com fóssil de Pappochelys
Comparação de uma Tartaruga moderna com fóssil de Pappochelys

Ao que tudo indica, o Pappochelys, que media cerca de 20 cm de comprimento, possuía uma série de estruturas ósseas protegendo a parte de baixo de sua barriga, confirmando que a fusão de estruturas semelhantes às costelas formou essa mesma parte, chamada de plastron, além de possuir uma cauda longa para ajudar na natação. O fóssil foi encontrado num leito de um lago, evidenciando que o Pappochelys vivia sua vida intermediando entre o ambiente aquático e marinho, assim como as tartarugas modernas. A parte de cima do casco seriam escudos epidérmicos, centros das vértebras alongadas apresentando constrições e no final se fundindo uma na outra.

Coluna vertebral vista do interior do casco
Coluna vertebral vista do interior do casco.

Se você, quando criança, achou que elas poderiam sair de seus cascos, estava muito enganado. Até semana que vem!

 

 

 

 

 

 

 

 

#004 CHARMANDER

”O fogo em sua cauda mostra a intensidade de sua força vital. Se estiver fraca, o fogo também queimará menos intensamente…” – Pokémon Gold

Juntamente com o Bulbasaur, e Squirtle, o Charmander faz parte dos três Pokémon iniciais de Kanto. Em sua morfologia, e de acordo com sua Pokédex original do jogo, sua descrição e espécie remete aos anfíbios, especificamente às Salamandras.

Ao se ler anfíbios, automaticamente, nos lembramos do grupo dos sapos. Porém, o grupo dos anfíbios atuais – Lissamphibia – se dividiu em 3 linhagens evolutivas: Urodela (Salamandras), Anura (Sapos e rãs) , Gymnophiona (Cecílias). Os Anura, mais populares, são conhecidos por sua forma de locomoção bem característica e considerados como um grupo bem sucedido, pois suas patas traseiras podem ser usadas para vários tipos de locomoções, sendo a de saltar a mais famosa, mas esta variedade vai além, podendo também escalar e nadar com movimentos alternados das patas dianteiras e traseiras com a ajuda da membrana interdigital (em alguns).

Não muito famosas, as Salamandras possuem corpo alongado e apresentam quatro patas. Seus passos se assimilam, muitas vezes, a de seus antepassados tetrápodes. Bastante sensíveis a variações ambientais, estes animais são os mais afetados quando há algum desequilíbrio ecológico, devido a sua sensibilidade e necessidade de ter que completar seu ciclo de vida dentro e fora da água. Muitas espécies não conseguem tolerar o estresse hídrico de alguns ambientes, caso a mudança seja minimamente brusca . Mas voltando ao que interessa, nos anfíbios, em geral, existe uma característica que é muito marcante na biologia destes animais: o Tegumento úmido e permeável. Do latim Liss – Liso, alguns destes animais necessitam viver boa parte de suas vidas em locais úmidos para que haja uma camada de água que facilite as trocas gasosas entre seu tegumento e o ambiente. Mas há sempre uma exceção.

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Algumas espécies de Anuros e Salamandras conseguem passar boa parte de suas vidas em tocas úmidas que fazem no chão,
saindo somente em épocas chuvosas para se alimentar e se reproduzir. Agora eu cheguei onde queria.

Se o Charmander, supostamente seria um animal ”semi-aquático” e necessita viver boa parte de sua vida dentro da água, por que e como a chama em sua cauda não se apaga quando em locais muito úmidos?

Até mesmo no anime o Charmander do Ash e o Charizard do Red ( protagonistas de universos diferentes dentro da franquia) foram completamente submergidos na água sem que sua chama fosse apagada. Como alguns fãs vão se lembrar, no primeiro episódio em que apareceu um da espécie, ele foi abandonado por seu treinador e deixado na chuva o que ocasionou a diminuição da chama. O que se sabia na época em que assistíamos era de que, se a chama se apagasse o Pokémon morreria. Primeiramente temos que ter em mente que o fogo não é um fenômeno físico e sim químico, então, desde que se dê combustível e oxigênio na quantidade certa (dependendo do lugar), se pode obter uma chama até mesmo embaixo d’água. Na verdade, o fogo na ponta de sua cauda não representa o fenômeno químico em sí. Quero dizer, sua cauda não está fritando o tempo todo, pois ao invés da reação química de queima de oxigênio, aqui a combustão representa a saúde do animal. O que eu quero dizer é que talvez o Charmander não dependa de casos externos como falta de ar ou umidade para se abastecer. Em nossa respiração, o oxigênio é captado nas membranas umedecidas dos alvéolos pulmonares e transportado para todo o corpo através da corrente sanguínea. Talvez no Charmander a respiração abasteça a chama, então, se este estiver doente ou abalado emocionalmente, a chama diminuirá em consequência.

''-Algo não está cheirando bem''
”-Algo não está cheirando bem”

O mesmo pode acontecer ao contrário, quando sua saúde e vigor estão melhores, o fogo em suas caudas brilham e as chamas são mais intensas. Há até uma descrição na Pokédex que diz que os filhotes, não habituados com a fulgência,  muitas vezes se queimam. Por falar em filhotes, vocês sabiam que existe uma salamandra que é o único vertebrado (que se sabe) capaz de fazer fotossíntese? Mas isso fica para outro dia. XD

 

#001 BULBASAUR

”As vezes o Bulbasaur pode ser visto tirando uma soneca sob a luz do sol. Há também uma semente em suas costas. Drenando a luz dos raios solares, esta semente pode se tornar progressivamente maior.” – Pokémon Ruby

Mais uma vez foi difícil escolher com qual começar. Porém, resolvi começar com esse dentre os três, pois tenho mais afinidade com o tipo Grama (além do mais, ele é o #1) e logo vocês irão saber o porquê.

Inicialmente, vou tratar de suas características morfológicas principais e uma delas é a condição tetrápode (animais que se locomovem sob quatro patas). Em algum momento na história da evolução peixes pulmonados ancestrais conseguiram transitar entre os ambientes ambiente aquáticos e terrestre. Um dos motivos que se acredita (dentre muitos estudos) para que tenham saído do ambiente aquático foi a de que a rica vegetação teria aumentado os níveis de oxigênio na atmosfera.  Isto levou ao acúmulo de matéria orgânica gerada pela vegetação que teria se acumulado no ambiente em que viviam, diminuindo os níveis de oxigênio na água e juntamente com outros desafios. Uma das soluções para isso foi a migração para o ambiente fora d’àgua . Os primeiros tetrápodes teriam tido a mesma origem que os anfíbios. Acredito que daí surgem algumas associações do Bulbasaur tendo a forma de sapo ou animais parecidos. Registros apontam  que a mudança do ambiente terrestre para o aquático ocorreu há mais de 370 milhões de anos. Mas para chegar onde eu quero preciso ir mais além, muito atrás na história do planeta. É aí que entra a Teoria da Endossimbiose. 

Esta teoria, proposta pela bióloga Lynn Margulis, em seu trabalho mais importante, diz que que a mitocôndria teria surgido a partir de uma endossimbiose. A grosso modo se diz que as mitocôndrias e cloroplastos teriam origem em um procarionte autotrófico, ou seja, que produz seu próprio alimento, e que esta foi fagocitada por uma célula eucarionte.

Mas como o Bulbasaur consegue drenar a energia a partir do Sol ?

Você em algum momento de sua vida já ouviu falar na fotossíntese, que é a característica principal dos vegetais (seres autotróficos). Neste processo eles captam, por meio de complexas estruturas, a  energia luminosa convertendo-a em energia química que e a principal fonte de energia celular. Esta move toda a vida e é a nossa única fonte primordial de energia para que se exista vida no planeta. Julgando pela coloração, este Pokémon faz uso de uma pigmento chamado de Clorofila. Esta clorofila é responsável pela coloração esverdeada dos cloroplastos, estruturas especializadas na captação de luz. Dentro destes, a luz é recebida de forma ativa através da excitação dos fótons e formarão moléculas que irão se dividir e formar moléculas conhecidas como ATP.

O ATP ( Adenosina Tri Fostato) é a principal moeda de troca energética e fonte de energia para a maioria dos seres vivos. Através da quebra de suas longas cadeias é liberada uma quantidade de energia que são captadas através de processos bioquímicos. Pois bem, vamos voltar para o Bulbasaur.

No mundo em que vivemos há vários exemplos de seres fotossintetizantes, porém, o único animal que se conhece, assim como o Bulba, adquire os cloroplastos através da ingestão de vegetais. Por exemplo temos o de uma lesma marinha (Elysia chlorotica) que pode passar dias ou até meses sem comer, apenas se aproveitando do mecanismo fotossintético.

Elysia-Chlorotica-Credit-Patrick-Krug
Créditos: Patrick Krug

Sendo o único exemplo de transferência gênica de um organismo para outro, estudos poderiam ser feitos para se comprovar detalhes da Teoria da Endossimbiose. Mas isso fica para outro post.  XD