#007 SQUIRTLE

O casco do Squirtle não é meramente usado para proteção. O formato arredondado de seu casco e as ranhuras em sua superfície ajudam a minimizar a resistência na água, fazendo com que este Pokémon nade em altas velocidades. – Pokémon Ruby/Sapphire

Para completar o trio de iniciais de Kanto, hoje eu trouxe o Squirtle. Automaticamente, ao ver sua aparência, nos lembramos das tartarugas. Um dos grandes assuntos tem sido sobre evolução desses répteis, porém, há poucos registros fósseis descobertos que nos mostram transições deste grupo ao longo do tempo. Os primeiros relatos sobre os ancestrais das tartarugas datam do período Triássico e pouco se sabe sobre suas modificações durante as eras.

Anapsid Diapsid Skulls Chp2 Fig1

Atualmente, se aceita que tartarugas são Anapsidas e não possuem aberturas no crânio além das oculares. Ao contrário disso, os Diapsidas, que se referem aos répteis, assim como os lagartos crocodilos e aves, pois estes possuem mais de uma abertura na região temporal de seus crânios. (¹)

Voltando à Pokédex, ela tem tudo para nos dizer sobre o que mais chama atenção nesses Pokémon: seu casco. Como esperado, este é chave para o sucesso evolutivo desta ordem. No mundo real, essas criaturas estão agrupadas em uma ordem chamada de Testudina, ou seja, as tartarugas, como dito anteriormente. Para muitos, o Squirtle é o mais simpático e preferido na hora de escolher como inicial; mas não se enganem, as tartarugas são de longe um dos grupos de vertebrados mais estranhos. Imagine passar a sua vida inteira dentro de uma estrutura recoberta pelos seus próprios ossos (casco), formada pela fusão de sua coluna vertebral e costelas achatadas e ainda com suas patas dentro das costelas.

 

a2b17d14ddb9bfa708dc0b0d8d0e88722d6a756ae58ed4e782418492ee06c938

Mas, como as tartarugas conseguiram seus cascos?

Você deve estar pensando na variedade de carapaças que as espécies de quelônios podem ter. A forma de seus cascos acaba refletindo em seus hábitos de vida como resposta de suas várias pressões seletivas impostas pelos ambientes em que vivem. Cágados, por exemplo, possuem cascos achatados com ossificações reduzidas para que não pesem tanto dentro da água, junto de patas especiais com membrana interdigital para auxiliar na natação. Já os jabutis possuem adaptações para viverem no meio terrestre com patas apropriadas para escavação e casco mais convexo. Alguns podem até trocar partes de pouco em pouco, acompanhando o crescimento do animal. Pode parecer uma tarefa difícil carregar sua ”casa” por aí, mas acontece que o material de que seus ossos são feitos é bem leve, o que ajuda na dinâmica dentro da água. O mais interessante sobre o casco é que, na verdade, se tratam de costelas achatadas revertidas por queratina. (!)

Pouco se sabe sobre a evolução de seu casco ao longo das eras. Ao que parece, eles tiveram uma origem a partir de um lagarto Diapsida, descoberto no ano passado (2015). Existe apenas um gênero, esse denominado Pappochelys rosinae, que morfologicamente fica intermediário com espécies encontradas desde o final do Triássico como o Odontochelys e Eunotosaurus do período Permiano. (¹)

Comparação de uma Tartaruga moderna com fóssil de Pappochelys
Comparação de uma Tartaruga moderna com fóssil de Pappochelys

Ao que tudo indica, o Pappochelys, que media cerca de 20 cm de comprimento, possuía uma série de estruturas ósseas protegendo a parte de baixo de sua barriga, confirmando que a fusão de estruturas semelhantes às costelas formou essa mesma parte, chamada de plastron, além de possuir uma cauda longa para ajudar na natação. O fóssil foi encontrado num leito de um lago, evidenciando que o Pappochelys vivia sua vida intermediando entre o ambiente aquático e marinho, assim como as tartarugas modernas. A parte de cima do casco seriam escudos epidérmicos, centros das vértebras alongadas apresentando constrições e no final se fundindo uma na outra.

Coluna vertebral vista do interior do casco
Coluna vertebral vista do interior do casco.

Se você, quando criança, achou que elas poderiam sair de seus cascos, estava muito enganado. Até semana que vem!

 

 

 

 

 

 

 

 

#004 CHARMANDER

”O fogo em sua cauda mostra a intensidade de sua força vital. Se estiver fraca, o fogo também queimará menos intensamente…” – Pokémon Gold

Juntamente com o Bulbasaur, e Squirtle, o Charmander faz parte dos três Pokémon iniciais de Kanto. Em sua morfologia, e de acordo com sua Pokédex original do jogo, sua descrição e espécie remete aos anfíbios, especificamente às Salamandras.

Ao se ler anfíbios, automaticamente, nos lembramos do grupo dos sapos. Porém, o grupo dos anfíbios atuais – Lissamphibia – se dividiu em 3 linhagens evolutivas: Urodela (Salamandras), Anura (Sapos e rãs) , Gymnophiona (Cecílias). Os Anura, mais populares, são conhecidos por sua forma de locomoção bem característica e considerados como um grupo bem sucedido, pois suas patas traseiras podem ser usadas para vários tipos de locomoções, sendo a de saltar a mais famosa, mas esta variedade vai além, podendo também escalar e nadar com movimentos alternados das patas dianteiras e traseiras com a ajuda da membrana interdigital (em alguns).

Não muito famosas, as Salamandras possuem corpo alongado e apresentam quatro patas. Seus passos se assimilam, muitas vezes, a de seus antepassados tetrápodes. Bastante sensíveis a variações ambientais, estes animais são os mais afetados quando há algum desequilíbrio ecológico, devido a sua sensibilidade e necessidade de ter que completar seu ciclo de vida dentro e fora da água. Muitas espécies não conseguem tolerar o estresse hídrico de alguns ambientes, caso a mudança seja minimamente brusca . Mas voltando ao que interessa, nos anfíbios, em geral, existe uma característica que é muito marcante na biologia destes animais: o Tegumento úmido e permeável. Do latim Liss – Liso, alguns destes animais necessitam viver boa parte de suas vidas em locais úmidos para que haja uma camada de água que facilite as trocas gasosas entre seu tegumento e o ambiente. Mas há sempre uma exceção.

ciclo de vida

Algumas espécies de Anuros e Salamandras conseguem passar boa parte de suas vidas em tocas úmidas que fazem no chão,
saindo somente em épocas chuvosas para se alimentar e se reproduzir. Agora eu cheguei onde queria.

Se o Charmander, supostamente seria um animal ”semi-aquático” e necessita viver boa parte de sua vida dentro da água, por que e como a chama em sua cauda não se apaga quando em locais muito úmidos?

Até mesmo no anime o Charmander do Ash e o Charizard do Red ( protagonistas de universos diferentes dentro da franquia) foram completamente submergidos na água sem que sua chama fosse apagada. Como alguns fãs vão se lembrar, no primeiro episódio em que apareceu um da espécie, ele foi abandonado por seu treinador e deixado na chuva o que ocasionou a diminuição da chama. O que se sabia na época em que assistíamos era de que, se a chama se apagasse o Pokémon morreria. Primeiramente temos que ter em mente que o fogo não é um fenômeno físico e sim químico, então, desde que se dê combustível e oxigênio na quantidade certa (dependendo do lugar), se pode obter uma chama até mesmo embaixo d’água. Na verdade, o fogo na ponta de sua cauda não representa o fenômeno químico em sí. Quero dizer, sua cauda não está fritando o tempo todo, pois ao invés da reação química de queima de oxigênio, aqui a combustão representa a saúde do animal. O que eu quero dizer é que talvez o Charmander não dependa de casos externos como falta de ar ou umidade para se abastecer. Em nossa respiração, o oxigênio é captado nas membranas umedecidas dos alvéolos pulmonares e transportado para todo o corpo através da corrente sanguínea. Talvez no Charmander a respiração abasteça a chama, então, se este estiver doente ou abalado emocionalmente, a chama diminuirá em consequência.

''-Algo não está cheirando bem''
”-Algo não está cheirando bem”

O mesmo pode acontecer ao contrário, quando sua saúde e vigor estão melhores, o fogo em suas caudas brilham e as chamas são mais intensas. Há até uma descrição na Pokédex que diz que os filhotes, não habituados com a fulgência,  muitas vezes se queimam. Por falar em filhotes, vocês sabiam que existe uma salamandra que é o único vertebrado (que se sabe) capaz de fazer fotossíntese? Mas isso fica para outro dia. XD

 

#001 BULBASAUR

”As vezes o Bulbasaur pode ser visto tirando uma soneca sob a luz do sol. Há também uma semente em suas costas. Drenando a luz dos raios solares, esta semente pode se tornar progressivamente maior.” – Pokémon Ruby

Mais uma vez foi difícil escolher com qual começar. Porém, resolvi começar com esse dentre os três, pois tenho mais afinidade com o tipo Grama (além do mais, ele é o #1) e logo vocês irão saber o porquê.

Inicialmente, vou tratar de suas características morfológicas principais e uma delas é a condição tetrápode (animais que se locomovem sob quatro patas). Em algum momento na história da evolução peixes pulmonados ancestrais conseguiram transitar entre os ambientes ambiente aquáticos e terrestre. Um dos motivos que se acredita (dentre muitos estudos) para que tenham saído do ambiente aquático foi a de que a rica vegetação teria aumentado os níveis de oxigênio na atmosfera.  Isto levou ao acúmulo de matéria orgânica gerada pela vegetação que teria se acumulado no ambiente em que viviam, diminuindo os níveis de oxigênio na água e juntamente com outros desafios. Uma das soluções para isso foi a migração para o ambiente fora d’àgua . Os primeiros tetrápodes teriam tido a mesma origem que os anfíbios. Acredito que daí surgem algumas associações do Bulbasaur tendo a forma de sapo ou animais parecidos. Registros apontam  que a mudança do ambiente terrestre para o aquático ocorreu há mais de 370 milhões de anos. Mas para chegar onde eu quero preciso ir mais além, muito atrás na história do planeta. É aí que entra a Teoria da Endossimbiose. 

Esta teoria, proposta pela bióloga Lynn Margulis, em seu trabalho mais importante, diz que que a mitocôndria teria surgido a partir de uma endossimbiose. A grosso modo se diz que as mitocôndrias e cloroplastos teriam origem em um procarionte autotrófico, ou seja, que produz seu próprio alimento, e que esta foi fagocitada por uma célula eucarionte.

Mas como o Bulbasaur consegue drenar a energia a partir do Sol ?

Você em algum momento de sua vida já ouviu falar na fotossíntese, que é a característica principal dos vegetais (seres autotróficos). Neste processo eles captam, por meio de complexas estruturas, a  energia luminosa convertendo-a em energia química que e a principal fonte de energia celular. Esta move toda a vida e é a nossa única fonte primordial de energia para que se exista vida no planeta. Julgando pela coloração, este Pokémon faz uso de uma pigmento chamado de Clorofila. Esta clorofila é responsável pela coloração esverdeada dos cloroplastos, estruturas especializadas na captação de luz. Dentro destes, a luz é recebida de forma ativa através da excitação dos fótons e formarão moléculas que irão se dividir e formar moléculas conhecidas como ATP.

O ATP ( Adenosina Tri Fostato) é a principal moeda de troca energética e fonte de energia para a maioria dos seres vivos. Através da quebra de suas longas cadeias é liberada uma quantidade de energia que são captadas através de processos bioquímicos. Pois bem, vamos voltar para o Bulbasaur.

No mundo em que vivemos há vários exemplos de seres fotossintetizantes, porém, o único animal que se conhece, assim como o Bulba, adquire os cloroplastos através da ingestão de vegetais. Por exemplo temos o de uma lesma marinha (Elysia chlorotica) que pode passar dias ou até meses sem comer, apenas se aproveitando do mecanismo fotossintético.

Elysia-Chlorotica-Credit-Patrick-Krug
Créditos: Patrick Krug

Sendo o único exemplo de transferência gênica de um organismo para outro, estudos poderiam ser feitos para se comprovar detalhes da Teoria da Endossimbiose. Mas isso fica para outro post.  XD