#258 MUDKIP

Na água, Mudkip respira usando as brânquias de suas bochechas. Quando se encontram em uma situação muito intensa em uma batalha, este Pokémon irá liberar um imenso poder que pode esmagar pedras até maior que ele mesmo – Pokémon Sapphire

Hoje eu trouxe mais um inicial, desta vez um da região de Hoenn, que é muitas vezes confundido com um peixe de nome análogo (mudskipper), porém, este pokémon está mais para anfíbio de acordo com a sua descrição na Pokédex. Pelo que sabemos que os anfíbios pertencem a uma grupo monofilético, pois estes apresentam características tão diversas que são compartilhadas entre as três linhagens (Anura, Gymnophiona e Urodela). Todos estes possuem várias características em comum, sendo a mais aparente o tegumento úmido.  Mas o que mais chama atenção é a capacidade de sofrerem uma grande metamorfose em suas vidas até chegarem no estágio adulto. Isto acontece por que é importante que os estes indivíduos explorem diversos recursos e ambientes diferentes durante sua vida, evitando muita competição entre eles mesmos, ou até outros animais.

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Eu vejo uma box cheia de Mudikps, e vocês? hehehe

Nosso Pokémon de hoje pertence a linhagem dos Urodela (ver também), na qual na maioria possuem cauda em seu estágio adulto ( ao contrário dos Anura). Este animal possui patas dianteiras e traseiras de tamanhos iguais e se locomovem de uma forma bem característica, se assemelhando com muito com o o caminhar dos primeiros tetrapodes. Mas você já ouviram um pouco dessa história no post do Bulbasaur.

O animal em que nosso Mudkip é baseado é um Ambystoma sp, mais especificamente os membros da família Ambystomatidae. Apesar de que do sério risco de extinção, muitos pesquisadores estudam a  incrível habilidade deles de regenerarem membros como cauda e outros membros por completo. Em vários estudos os membros destes animais foram amputados ( pode soar um pouco macabro, mas é pela ciência! hehe) e estes se regeneraram formando novos membros totalmente funcionais.   Mas, está não é a característica mais legal, acreditem!

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– Esta manhã comi meus irmãos de café da manhã (sim, algumas salamandras fazem isto).

O axolote, assim como outros anfíbios, se mantêm em seu estado juvenil (sem passar pela metamorfose), durante toda a sua vida, ou seja, ele eclode do ovo e permanece com as características de sua fase larval durante toda a sua vida, sendo assim, suas brânquias não são retraídas e nem os bulbos oculares são protuberantes, assim como nas fases adultas. Estes podem ainda se reproduzirem durante esta fase denominada de neotenia (que é esse fenômeno de juvenilização progressiva).

A neotenia é uma característica comprovada pela genética. primeiramente estabelecida pelo famoso Julian S. Huxley, no ano de 1920. Em seu experimento se aplicava doses hormonais para se provar que o que controlava o desenvolvimento destes animais era a glândula tireóide, também responsável por uma dúzia de mudanças em mamíferos.  Com isso se comprovou que a pedomorfose (outro nome que se dá a neotenia) é na verdade um passo para trás na evolução, uma vez que as espécies que conseguem se reter em suas formas juvenis descendem de outras que não são capazes de realizar o processo. Ainda não está satisfeito com o qual incríveis são as salamandras? Lembre-se que eu disse que haveria um post sobre um vertebrado que consegue fazer fotossíntese. Quem será esse Pokémon?

Até a próxima (:

#369 RELICANTH

”-Um Pokémon que antes acreditava-se estar extinto. A espécie mantem sua mesma forma desde a 100 milhões de anos. Eles conseguem andar no solo marinho usando suas nadadeiras peitorais.” – Pokémon Emerald

Ainda me lembro do Professor Oak no PokéGear me dizendo que havia uma horda desse peixão na Rota 12 no jogo. Até então nunca o tinha visto, fui e o capturei. Logo que o pesquei, ele me lembrou um fóssil, ou alguma coisa muito antiga que ainda vivia nos mares profundos. A a sua descrição na Pokédex fazia jus ao que eu tinha pensado. Achei até que deveria ir ‘ressuscitar’ algum fragmento para ter ele no jogo na cidade de Pewter, mas não foi o caso. Pois bem. Vou explicar o que aconteceu para que eu descobrisse porque ele foi simplesmente pescado no jogo. Mas antes de começar, o que você sabe sobre peixes? Você sabia que eles não existem ? Vou contar uma estória que ouvi numa aula logo que iniciei o ensino superior.

No cladograma dos vertebrados, o táxon ‘Pisces’ não é formado por descendentes de um mesmo ancestral comum. O que eu quero dizer é que o ancestral de alguns lagartos é o mesmo da sardinha e portanto não é considerado um grupo monofilético (agrupamento que inclui uma espécie ancestral e todas as suas espécies descendentes). Tudo isso porque o táxon foi criado com base na semelhança entre vertebrados aquáticos, pois os peixes possuem mais parentesco com o grupo dos Tetrápoda. Da proxima vez que não se sentir cheio depois de comer peixe, não se preocupe, não é culpa sua.

O Relicanth é baseado em um peixe de escamas grossas chamadas de escamas cosmóides encontradas apenas em peixes antigos. Chamado de Coelacanth (Latimeria menadoensis ou L. chamlunae)  este foi redescoberto em 1938 na costa da Africa do Sul e Índia. Por eles viverem em lugares profundos, desenvolveram uma adaptação especial conhecida como Tapetum, presente em gatos, cachorros e polvos vampiros, bem característica por aquele brilho refletido do olho quando expostos a luz. Isso ajuda a captar luz mesmo em ambientes  quase sem nenhuma luminosidade.

Celacantos (como se fala por aqui) pertence a um clado de peixes predadores chamados de Sarcopterygii conhecidos através de registros fósseis da época do Devoniano (400 a 360 milhões de anos atrás). São considerados os representantes dos anfíbios e todos os tetrápodes. E aí é que está.

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Muitas vezes esse animal é mencionado como um ”fóssil vivo” por ter vivido em regiões isoladas, e devido a esse isolamento quase não se modificaram em sua morfologia, pois não houve ‘necessidade’ de mudanças (causadas por pressões seletivas) para que suas estruturas se modificassem, de forma que os diferenciasse minimamente e serem considerados de outra espécie ou grupo. A expressão em que se diz que o indivíduo quase não se alterou morfologicamente soa errôneo e não é muito correto de se dizer, pois nesse caso muitas lacunas temporais entre os Coelacanth atuais e do fóssil mais antigo de que se tem notícia, o Megalocoelacanthus dobei,  que viveu entre 145,5 milhões de anos atrás, ainda não foram preenchidas.

Mas o que tem de tão importante nisso?

Essas criaturas são muito importantes porque com eles  se consegue relacionar os peixes pulmonados e os tetrápodes. Vestígios de uma estrutura óssea em seu abdôme vem sido discutida desde o  século 19, apenas recentemente essa estrutura foi descrita como um pulmão vestigial em Celacantos do Paleozóico e Mesozóico. Pouco se sabia dos contemporâneos e apenas agora se comprovou que essa estrutura é uma adaptação a profundidade em que vive. Talvez isto explique como sobreviveram durante tantas eras. Esse órgão vestigial está relacionado como uma reserva oxigênio, pois a região abaixo dessa estrutura está fortemente coberta por escamas mais duras e muito próximas as brânquias. E mais, esses animais possuem pares de nadadeiras divididas em três lóbulos e muitas vezes as usam para ‘andar’ no solo marinho. Algumas dessas características  acabam formando uma ponte evolucionária entre os animais marinhos e os terrestres, muitas vezes chamados de ”Elo Perdido”.

Assim como no jogo, como o Coelacanth, o Relicanth é raro de se achar. Hoje acredita-se que existam pouco menos de 500 indivíduos nas regiões em que foi achado. Sem a conservação talvez percamos essa relíquia histórica. E coloca história nisso.

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5 Francos do país de Comoros.

#219 MAGCARGO

”Sua casca frágil ocasionalmente expele chamas intensas que circundam todo o seu corpo.” – Pokémon Fire Red

Dando continuação aos posts, resolvi colocar esse simpático Pokémon que é bem interessante e faz parte de um Filo bastante intrigante. Estes vivem e passam por nós quase que despercebidamente. Esses gastropodes são extremamente importantes para o ecossistema de modo geral, mas chamo atenção para a sua história evolutiva que é muito complexa.

Analisando sua biologia,  suas características refletem muito aos caracóis existente no mundo real. Obviamente, nosso Pokémon é baseado em um caracol pertencente ao filo Mollusca. Seu corpo é coberto por um manto de magma, que é um órgão que forma a parede dorsal, que na maioria dos moluscos reais cresce durante o desenvolvimento e contem canais musculares, canais hemocélicos, etc.  Em sua descrição na Pokédex, se diz que o corpo do Magcargo pode chegar a 18,000 Fahrenheit ( 9982ºC), o que é mais que o bastante para causar a evaporação da água quando este entra em contato, principalmente em dias chuvosos em que os pingos se tornam vapor instantaneamente quando atingem seu corpo,  como dito em sua Pokédex.

Victaphanta atramentaria é um dos possíveis animais em que se basearam este pokémon.
A Victaphanta atramentaria é um dos possíveis gastrópodes da família Rhytindidae em que se basearam este Pokémon.

A concha do Magcargo se forma da mesma forma em que as rochas são formadas, atravéz do resfriamento continuo em contato com o ar, sendo assim, se forma uma camada bem fina que pode se desfazer com qualquer contato que não seja delicado o suficiente. Daí a sua Hidden Ability de Weak Armor no jogo, que não vou entrar em detalhes. Cheguei aonde queria. A concha.

No mundo real, as conchas modernas são enroladas assimetricamente, e estas tiveram uma, talvez terrível, consequência (quem disse que evolução era só para o bem?) e mesmo assim, esse grupo conseguiu sobreviver ao longos das eras, sendo que, dentre outras coisas, é claro, sua concha, juntamente com outros fatores,  conferiram o sucesso adaptativo até os dias de hoje.

Um dos fenômenos mais extraordinários na história evolutiva dos Mollusca é um fenômeno conhecido como torção, que acontece em sua concha. Esta torção resultou à restrição do espaço do lado direito da cavidade do manto do animal, ou seja, para que se tenha uma concha diversas modificações na sua anatomia interna levaram a uma grande mudança do lado de fora de seu corpo,  fazendo com que tenha tido perdas ou mudanças no posicionamento de estruturas vitais, como por exemplo os átrios, que são lacunas por onde seu sangue circula e também o osfradidio, orgão químioreceptor usado geralmente na procura por parceiros sexuais e alimentos, que eram originalmente do lado esquerdo, ao longo do crescimento do animal, sendo a parte mais evidente desta modificação só é expressa em sua fase adulta.

Nos gastrópodes modernos, o fluxo de líquidos passam primeiramente pelos ctenídios (órgão branquial primitivo) em seguida ânus e nefridioporos e só depois pelos póros excretores da sua concha. Sua concha se desenvolve durante a sua fase larval chamada de fase véliger, que ao longo de seu desenvolvimento sofre uma espécie de torção da massa visceral, deslocando seu manto para frente, sob sua cabeça. Digamos que eles ”sofrem” um pouco, mas nem percebem.

Várias hipóteses foram levantadas para se saber o por quê desta torção, uma delas foi a de que a cabeça precisava de mais espaço na concha para se protegeram de predadores, devido ao grande espaço que esta requeria. Outra foi de que o animal tentou equilibrar seus órgãos internos para que houvesse um equilíbrio e a concha não tombasse para os lados. Talvez isto poderia ter causado a grande mudança no arranjo interno de suas estruturas vitais.

Como na natureza nada é perfeito, antigamente acreditava-se que essa adaptação foi uma resposta para evitar a auto poluição, por que sem a mudança no fluxo original da água através da cavidade do manto, dejetos, muitas vezes fecais, poderiam ser expulsas sob a cabeça e poluir sua própria boca e as regiões sensitivas (ctenídios, por exemplo), e por isso desenvolveram poros nas conchas alterando os fluxos de líquidos de forma unilateral, seguindo o curso mais eficiente para que isso ocorra.

Desenhos esquemático representando as mudanças nos padrões internos ao longo da história dos Mollusca.
Desenhos esquemáticos representando as mudanças nos padrões internos ao longo da história dos Mollusca.

 Agora talvez se pergunte: Mas e as lesmas sem conchas? Bom, isso também fica para outro post.