#369 RELICANTH

”-Um Pokémon que antes acreditava-se estar extinto. A espécie mantem sua mesma forma desde a 100 milhões de anos. Eles conseguem andar no solo marinho usando suas nadadeiras peitorais.” – Pokémon Emerald

Ainda me lembro do Professor Oak no PokéGear me dizendo que havia uma horda desse peixão na Rota 12 no jogo. Até então nunca o tinha visto, fui e o capturei. Logo que o pesquei, ele me lembrou um fóssil, ou alguma coisa muito antiga que ainda vivia nos mares profundos. A a sua descrição na Pokédex fazia jus ao que eu tinha pensado. Achei até que deveria ir ‘ressuscitar’ algum fragmento para ter ele no jogo na cidade de Pewter, mas não foi o caso. Pois bem. Vou explicar o que aconteceu para que eu descobrisse porque ele foi simplesmente pescado no jogo. Mas antes de começar, o que você sabe sobre peixes? Você sabia que eles não existem ? Vou contar uma estória que ouvi numa aula logo que iniciei o ensino superior.

No cladograma dos vertebrados, o táxon ‘Pisces’ não é formado por descendentes de um mesmo ancestral comum. O que eu quero dizer é que o ancestral de alguns lagartos é o mesmo da sardinha e portanto não é considerado um grupo monofilético (agrupamento que inclui uma espécie ancestral e todas as suas espécies descendentes). Tudo isso porque o táxon foi criado com base na semelhança entre vertebrados aquáticos, pois os peixes possuem mais parentesco com o grupo dos Tetrápoda. Da proxima vez que não se sentir cheio depois de comer peixe, não se preocupe, não é culpa sua.

O Relicanth é baseado em um peixe de escamas grossas chamadas de escamas cosmóides encontradas apenas em peixes antigos. Chamado de Coelacanth (Latimeria menadoensis ou L. chamlunae)  este foi redescoberto em 1938 na costa da Africa do Sul e Índia. Por eles viverem em lugares profundos, desenvolveram uma adaptação especial conhecida como Tapetum, presente em gatos, cachorros e polvos vampiros, bem característica por aquele brilho refletido do olho quando expostos a luz. Isso ajuda a captar luz mesmo em ambientes  quase sem nenhuma luminosidade.

Celacantos (como se fala por aqui) pertence a um clado de peixes predadores chamados de Sarcopterygii conhecidos através de registros fósseis da época do Devoniano (400 a 360 milhões de anos atrás). São considerados os representantes dos anfíbios e todos os tetrápodes. E aí é que está.

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Muitas vezes esse animal é mencionado como um ”fóssil vivo” por ter vivido em regiões isoladas, e devido a esse isolamento quase não se modificaram em sua morfologia, pois não houve ‘necessidade’ de mudanças (causadas por pressões seletivas) para que suas estruturas se modificassem, de forma que os diferenciasse minimamente e serem considerados de outra espécie ou grupo. A expressão em que se diz que o indivíduo quase não se alterou morfologicamente soa errôneo e não é muito correto de se dizer, pois nesse caso muitas lacunas temporais entre os Coelacanth atuais e do fóssil mais antigo de que se tem notícia, o Megalocoelacanthus dobei,  que viveu entre 145,5 milhões de anos atrás, ainda não foram preenchidas.

Mas o que tem de tão importante nisso?

Essas criaturas são muito importantes porque com eles  se consegue relacionar os peixes pulmonados e os tetrápodes. Vestígios de uma estrutura óssea em seu abdôme vem sido discutida desde o  século 19, apenas recentemente essa estrutura foi descrita como um pulmão vestigial em Celacantos do Paleozóico e Mesozóico. Pouco se sabia dos contemporâneos e apenas agora se comprovou que essa estrutura é uma adaptação a profundidade em que vive. Talvez isto explique como sobreviveram durante tantas eras. Esse órgão vestigial está relacionado como uma reserva oxigênio, pois a região abaixo dessa estrutura está fortemente coberta por escamas mais duras e muito próximas as brânquias. E mais, esses animais possuem pares de nadadeiras divididas em três lóbulos e muitas vezes as usam para ‘andar’ no solo marinho. Algumas dessas características  acabam formando uma ponte evolucionária entre os animais marinhos e os terrestres, muitas vezes chamados de ”Elo Perdido”.

Assim como no jogo, como o Coelacanth, o Relicanth é raro de se achar. Hoje acredita-se que existam pouco menos de 500 indivíduos nas regiões em que foi achado. Sem a conservação talvez percamos essa relíquia histórica. E coloca história nisso.

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5 Francos do país de Comoros.

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